ADUFPA - A morte de Santiago Andrade e a produção intencional da confusão

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Publicado em 21/02/2014

A morte de Santiago Andrade e a produção intencional da confusão

A morte de Santiago Andrade e a produção intencional da confusão*

A bomba que esmagou a cabeça do cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Andrade, tem o potencial de suscitar diversas formas de análise. Uma delas parte do fato de que um trabalhador foi mortalmente atingido em praça pública, durante o seu trabalho. Ao mesmo tempo, esse trabalhador ganhava a vida como empregado de uma empresa pertencente ao poderoso setor genericamente chamado de grande mídia, esta sob a crescente suspeita de incentivar as manifestações “populares” desde junho do ano passado, um incentivo que obviamente nada tem de “popular”, mas que visa, ao contrário, a criminalizar as forças populares e criar problemas ao governo do Partido dos Trabalhadores que, com seus erros e acertos, incomoda o capital que, entre muitos outros locais, se aninha nos estúdios da grande mídia.

Daí a rapidez com que a cobertura televisiva se esmerou por encontrar culpados, tentando simular que a vítima era “um dos nossos”. E que esses culpados estariam justamente entre forças populares e partidárias inconformadas com as investidas do capital contra os tênues avanços das causas que, mesmo sem mexer no cerne do capital, indicam alguma possibilidade de transformação da brutal desigualdade social no Brasil.

Acontece que Santiago Andrade não era “um dos nossos”, ou deles – melhor dizendo – porque quem conhece o atual momento do fazer jornalístico no País, e infelizmente por quase toda a América Latina, sabe como é a vida de um repórter que precisa ganhar a vida como empregado desses conglomerados. Não são raros os casos em que o jornalista tem que confrontar a sua consciência de classe com as exigências do capital ao qual se vê obrigado a servir.

Nisso não há grande diferença com qualquer outro trabalhador nesse quadro perverso de ultraconcentração do capital e exacerbação dos “valores” do mercado. O que distingue o cinegrafista da Band e demais jornalistas é que este profissional trabalha com um bem simbólico que interfere na sensibilidade individual e coletiva, particularmente quando a informação midiática é editada com vistas a atingir objetivos de mobilização, nem que seja contraditoriamente uma forma de mobilização desmobilizadora em referência às causas populares. Assim, o cinegrafista da Band, consciente ou inconscientemente tombou entre estas duas realidades – a de ser um trabalhador sem voz junto ao capital a que serve e, ao mesmo tempo, um produtor de voz e imagem para a manipulação tão ao gosto das empresas midiáticas.

O episódio se insere num quadro amplo de produção da confusão e tentativa de, com isso, impedir que a maioria supere os condicionamentos históricos a que vive submetida. Máximo Grinberg, em seu livro Comunicação Alternativa na América Latina (1987), escrito num momento em que nem se imaginava as atuais redes sociais e a brutal concentração de poder nos meios de comunicação, é bem explícito:

“Os meios (de comunicação) são poderosos, mas não são onipotentes. Ao longo da história as elites sempre usufruíram do monopólio da palavra escrita. E hoje acrescentam ainda o monopólio da voz e da imagem em escala de ficção científica. Se esses meios fossem, porém, esses maravilhosos reprodutores da submissão, esses todo-poderosos conformadores de consciências, a ordem social seria irremovível”. Ainda bem que não têm todo o poder que afirmam ter, mas o têm o suficiente para construir a confusão em muitas cabeças. Felizmente, cada dia menos numerosas.

 

* Manuel Dutra - Jornalista e professor na Faculdade de Comunicação da UFPA.